“Precisamos de sair do olhar romântico da pobreza e enfrentar os desafios da desigualdade”.

A desigualdade económica clama até aos céus. Como podem dormir pacificamente aqueles que se vangloriam da riqueza exuberante quando há tanta miséria à sua volta, perguntou Joan Melé, presidente da Fundación Dinero y Conciencia, durante o seminário “Os desafios estruturais da América Latina e da banca ética”, o quinto episódio deste espaço que faz parte do Ciclo Digital Dinheiro e Consciência 2020. 

Melé explicou que a ostentação e a riqueza coexistem tanto que se tornou normal que assim fosse e nada acontece, e só quando ocorre uma explosão social é que percebemos de que ela existe e de que é inaceitável.

Acrescentou que existem grandes projectos e empresas que criariam inúmeros postos de trabalho e que poderiam crescer mas não encontrar financiamento adequado, pelo que o modelo da banca ética seria uma grande contribuição. “Queremos chegar ao coração das pessoas” para que ponham o seu dinheiro ao serviço de uma economia humana que ponha o ser humano no centro da sua reflexão.

Por sua vez, o diretor executivo da Fundación Dinero y Conciencia, Sebastián Cantuarias, abordou os desafios do projeto da banca ética que está sendo desenvolvido em quatro mercados-chave da América Latina: o Pacífico Sul, o Rio da Prata, o Atlântico Norte e o Caribe.

Como ponto de partida, Sebastián Cantuarias referiu-se às novas abordagens para “enfrentar os desafios estruturais que, como latino-americanos, temos nas nossas diferenças”.

A primeira delas, disse ele, é compreender a interdependência como a forma de se relacionar em termos económicos e comunitários.

Como segundo ponto, indicou que é necessário desafiar a tese da pobreza para abordar os desafios da região de uma perspectiva diferente, como, por exemplo, compreendermo-nos a nós próprios “a partir da perspectiva da riqueza”.

A este respeito, recordou que a América Latina é uma das zonas mais ricas do planeta em termos de biodiversidade e que, por conseguinte, o problema não é a falta de recursos, mas a sua distribuição,

“A riqueza confronta-nos com um problema porque somos muito ricos, mas desiguais”, disse ele.

Para o ilustrar, falou do exemplo do desenvolvimento econômico do Chile, que é também um modelo tremendamente desigual.

Neste sentido, explicou como Santiago foi construído de forma a colocar as famílias mais pobres na periferia. Falou dos diferentes níveis de qualidade de vida nesta cidade, onde em certas comunas o rendimento médio atinge os níveis dos países nórdicos, por oposição a outras onde são atingidos valores de nações como o Congo.

“Temos de sair da visão romântica da pobreza para enfrentar os desafios da desigualdade e da coexistência social”, afirmou.

Como exemplo das diferenças que podem ser observadas na sociedade chilena, falou sobre a relação entre os anos de escolaridade e o número de dentes que uma pessoa tem, ou os problemas nutricionais e alimentares que tem durante a sua vida.

Cantuarias também se referiu ao problema ao desafio associado ao sector da população que não estuda nem trabalha, e a percentagem de mães adolescentes nos sectores mais vulneráveis, por oposição aos deciles mais abastados.

Reiterou a necessidade de trabalhar no combate à segregação vivida nas cidades latino-americanas, uma das muitas variáveis da desigualdade.

Levantou também a questão das zonas de sacrifício, onde as pessoas vivem com graves dificuldades ambientais, de saúde, de educação e de habitação, e salientou que a desigualdade e as alterações climáticas são duas faces da mesma moeda.

Um banco que olha para o ser humano a partir de três áreas

Depois de apresentar a proposta da mudança de visual para enfrentar o problema da América Latina, Sebastián Cantuarias falou sobre a forma como o banco pretende enfrentar esta situação. Explicou que a banca ética procura investir em três áreas-chave que fomentam a relação do ser humano consigo próprio, com a sua comunidade e com o ambiente.

O Comissário afirmou que o projecto envolve uma estratégia que se articula em três vertentes: crowdlending , fundos de investimento e banca regulamentada.

“Há uma tremenda oportunidade de criar um banco”, disse ele.

Para concluir, reforçou a ideia de que não se trata de um banco em diferentes países, mas de um banco ético latino-americano com presença nas zonas mais fortes do continente.

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